Arquivo Público recebe coleção documental do médico Jayme Santos Neves

11:24 h

A História da Saúde no Espírito Santo recebeu uma nova fonte de pesquisas com a doação do acervo pessoal do médico Jayme Santos Neves ao Arquivo Público do Estado do Espírito Santo (APEES). A coleção é composta por sete diários, medalhas de homenagens, placas condecorativas, correspondências, fotografias, carteira de trabalho, entrevistas, dentre outros documentos. A entrega foi feita pela ex-funcionária do Sanatório Getúlio Vargas (SGV), Elídia Maria Franzin.

Jayme Santos Neves, nascido em Vitória, em 24 de agosto de 1909, foi médico, professor e escritor, sendo um dos pioneiros nas ações de políticas sanitárias no Estado. Os materiais doados ao APEES permitem rememorar a trajetória de Jayme, não apenas nos aspectos técnicos e profissionais, mas também referentes à sua vida cotidiana, como a infância, as relações familiares e o ingresso na Universidade. Sua principal área de atuação foi o combate à tuberculose, pelo qual realizou diversos trabalhos que visavam à busca de soluções para a redução da gravidade e alcance da doença.

Ao falar da sua atuação como médico em diários que fazem parte do acervo, Jayme descreve: “mais que uma profissão, a Medicina é uma atitude frente à vida, uma entrega, uma aspiração. Se o Direito põe a lei acima de tudo, se a Engenharia sobrepõe a técnica acima de todas as coisas, a Medicina, acima das leis e das técnicas, coloca o amor, a bondade. O médico, no limiar de sua carreira promete, segundo o juramento formulado pela Organização Mundial da Saúde, consagrar a vida ao serviço da humanidade. A distância que separa a competência e a autoridade do médico da timidez e angústia do doente deve ser rapidamente percorrida através de entendimento fácil, entre uma compreensão que se inclina e uma confiança que se eleva”, diz o relato.

Foi ele quem criou a Liga Espírito-Santense contra a Tuberculose (LESCT), em 1933. No ano de 1940, assumiu a diretoria dos Serviços Sanitários do Estado. Desempenhou ainda as funções de diretor do Serviço Nacional de Tuberculose, consultor da Organização Pan-americana de Saúde, professor da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) e assessor do Ministério da Saúde para o controle do tabagismo no Brasil; tornando-se destaque em saúde pública em todo o país. Faleceu em novembro de 1998.

A Medicina e Jayme Santos Neves

A sua ligação e encanto pela medicina podem ser observadas em seus diários e entrevistas. Ao concluir o curso ginasial Jayme conta que o seu pai, o médico João Santos Neves, lhe questionou: “e agora, meu filho, o que você pretende fazer”? Rápido, respondeu “vou estudar câmbio e variação do valor das moedas”. Ele afirma que o pai, após ficar calado bastante tempo, argumentou: “você podia pensar um pouco mais, e quem sabe, a Medicina? Salvar vidas, acudir aos outros nas enfermidades, sentir-se útil na prática de cada dia, traz uma recompensa interior que dinheiro nenhum jamais lhe poderá trazer”.

Diante das observações do pai, Jayme não hesitou. “Não preciso pensar, vou fazer Medicina. Gosto de ver o senhor como médico, e já pensei muitas vezes em ser igual. Conte comigo. Vou esquecer o câmbio. Estava só brincando”. Após a decisão, prestou vestibular e seguiu para a Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. “Comecei uma vida nova. Levantava entusiasmado e lá ia bem cedinho, de bonde, para a Faculdade. Com tudo indo bem nos estudos, Getúlio Vargas empossado, tudo calmo no Rio, pude correr atrás do que mais me interessava, o Curso de Tuberculose. O início coincidia com a minha formatura e sem perder tempo garanti a inscrição” relata.

Ao abordar a sua colação de grau, Jayme descreve o emocionado encontro com os pais e o seu profundo interesse pela tuberculose. “A turma dos parentes e amigos ainda me cobria de abraços e beijos, quando papai pede silêncio. Então, ele pega minha mão e, com muito carinho, coloca em meu dedo o seu anel de 40 anos”. Ele comenta: “meu filho, agora é a sua vez”. “Abraçamo-nos demoradamente e choramos”.

O medo da tuberculose

Jayme também conta em seus diários que o pai receava a tuberculose, pois ele sabia que o contato constante poderia ser fatal. “Mas eu não podia ceder ao seu medo. Era o que eu queria fazer” destaca.

“Aí pedi: então o senhor me empresta o dinheiro. O aparelho custa caro e tenho que mandar vir da França. Pretendo chegar em Vitória já com ele. O senhor bem sabe que este é o único tratamento de verdade para a tuberculose. E não tem ninguém lá que faça pneumotórax”. “Está bem, mas esse dinheiro você vai me pagar tostão por tostão. Jamais lhe daria uma arma contra sua própria vida”, disse o pai.

Na escrita do diário é possível apreender os riscos e o medo provocado pela doença. Nas clínicas e consultórios, o tuberculoso não entrava.

“Se um coitado tossisse duas ou três vezes, no cinema, na igreja, no clube… era a conta de um cutucar o outro e dar um jeito de se afastar. Era impossível internar um tuberculoso num hospital geral. Os hospitais particulares, principalmente os de montanha, eram caríssimos. Os tuberculosos pobres ficavam amontoados nos pavilhões do Caju e São Sebastião, numa elevação chamada ‘colina do sofrimento’”, descreve.

Diante da presença epidêmica da doença na cidade de Vitória, foi dele a iniciativa de criar o Sanatório Getúlio Vargas, mediante pedido feito ao então Interventor Federal no Espírito Santo, João Punaro Bley. O local escolhido foi o bairro Maruípe, na capital capixaba. No período de 1942 a 1967, no qual esteve em funcionamento, a instituição foi responsável por acolher os doentes para tratá-los ou ampará-los na fase terminal da enfermidade.

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