Projetos de Hip Hop levam conhecimento, beats e inclusão social

13:19 h

Produzir arte valorizando a representatividade social é um desafio cotidiano e as políticas públicas de cultura são ações que contribuem para o protagonismo destas expressões na prática. Para fortalecer o movimento da cultura Hip Hop no Espírito Santo, a Secretaria de Estado da Cultura (Secult), trabalha por meio de diversas iniciativas, como os Editais da Cultura, incluindo um específico para a linguagem – nº 003/2018 – Valorização da Cultura Hip Hop – e os eventos realizados em seus espaços culturais, revelando assim inúmeros projetos todos os anos.

Para a gerente de Cidadania e Diversidade Cultural da Secult, Karen Valentim, o movimento cresce a cada dia por sua conexão com diversas intervenções urbanas. “Há uma grande importância na valorização desses projetos que colaboram para os encontros entre os elementos que compõe essa cultura. São eles, o DJ, MC, Break danceGraffiti e como os próprios fazedores dessa cultura urbana dizem, o quinto elemento é o conhecimento que reúne todos eles. A partir do Hip Hop, as juventudes circulam pelas cidades, se conectam com outras linguagens e expressões artísticas e culturais. O movimento do Hip Hop ampliaos olhares para suas comunidades e suas necessidades, com isso possibilita caminhos para as mudanças dos desafios do cotidiano” frisa Karen.

Um exemplo de conexão de linguagem e representatividade social é o projeto Elas no Beat, ação contemplada no Edital nº 003/2018. Com o intuito de fortalecer a presença de mulheres e do público LGBT no universo da produção musical, foi realizado durante o mês de janeiro no espaço cultural Casa da Barão, no Centro de Vitória, uma série de oficinas gratuitas de conhecimento básico de softwares e programas de edição sonora.

Nas aulas oferecidas pelos músicos e produtores L.Brau e Leandro Bonfim, as alunas aprenderam a instalar e usar ferramentas digitais para produzir as batidas rítmicas eletrônicas (beats) no rap, além de outros gêneros como reggae e o dub. Segundo Leandro Bonfim, que também é integrante da banda Soltos & Prensados e produtor do selo Fusion Dub Records, a procura foi tanta que foram criadas mais dez vagas, além das 20 oferecidas na etapa inicial de inscrições.

“Percebemos que não havia a presença de mulheres e o público LGBT na produção sonora, portanto, criamos o projeto para quem que não possui esse acesso. Como somos negros e sabemos como é difícil ter certos tipos de conhecimento, queríamos compartilhar nossas experiências de tantos anos de estudo e trabalho no segmento. E foi um sucesso! Foram mais pessoas do que o esperado, abrimos uma turma extra e houve até a procura de pessoas que não moram na Grande Vitória”, destaca Leandro.

A artista plástica e DJ Thais Apolinário é outro exemplo de como as aulas do projeto puderam expandir tanto a sua experiência em apresentações ao vivo, como na pré-elaboração de suas bases eletrônicas nos estilos do dub e do reggae.

“Foi um mergulho. Nas oficinas aprendi mais sobre programas como o Ableton Live e o Sound Forge, além de me aprofundar no recortar de samplers e os recursos de mixagem. Eu que utilizo uma abordagem digital nas apresentações ao vivo e ao mesmo tempo tenho referência de artistas das décadas de 1960 e 1970, como Lee “Scratch” Perry e Mad Professor, comecei a pesquisar como as músicas podem se transformar totalmente em diferentes bases, sonoridades e estéticas”, enfatiza Thais.

Sons pelo Interior

Participante das oficinas Elas no Beat, a DJ e moradora do município de João Neiva, Lara Pinheiro Nunes, representa o recém-formado coletivo Gim, contemplado no Edital 004/2018 – Coletivo Artístico Juvenis, da Secult.  De acordo com Lara, o coletivo está reunindo cada vez mais os jovens da cidade em torno do movimento.

“O nosso Coletivo GIM organiza junto com o apoio da prefeitura e do Edital da Secult uma batalha de MC’s que acontece nos fins de semana, às vezes na pista de skate do centro ou no Museu ferroviário. Lá acontecem duelos de rimas e a apresentação de Break Dance. Eu levo muita coisa que aprendo no curso e acho que preciso dar continuidade. O que me falta agora é um notebook para me aprofundar ainda mais”, ressalta Lara.

Além da Batalha de MCs, o coletivo também está oferecendo duas oficinas: a de Break dance, que começou no mês de fevereiro e continua até abril, e a de rima, que acontece de março até julho. Os interessados em participar devem comparecer a sede da Secretaria Municipal de Cultura de João Neiva, que fica localizada na Avenida Pres. Vargas 157, Centro, próximo ao Banco Sicoob, das 07h às 11h e 12h30 às 16h30. Para mais informações. Telefone: 3258-3651.

Já na Região Norte do Estado, o projeto Aldeia Hip Hop foi um exemplo de mobilização de artistas e de coletivos no ano de 2018 e que hoje gera frutos. A iniciativa já conta com a participação de coletivos provenientes de 5 municípios capixabas: Pedro Canário; Conceição da Barra; Montanha, Pinheiros e São Mateus. As atividades contempladas no projeto são: Apresentação de rap, encontro com DJs, palestras, oficinas de desenho e pintura (foto), break dance, batalha de b.boys e exibição de documentários.

Segundo o autor do projeto Arnaldo Cardoso, que é bacharel em Comunicação Social e especialista em Gestão Pública da Cultura, o Edital de Valorização da Cultura Hip Hop da Secult foi fundamental como meio de estímulo para o projeto.  “Estamos em pleno vapor na região Norte e com oficinas gratuitas à população, bem como preparando-se para participar de editais de cultura em 2019. Vamos retomar em abril as atividades com aulas de Break dance em Pedro Canário e logo em seguida, haverá as oficinas de capacitação para as crianças e adolescentes que vão circular pela região, passando por Montanha, Conceição da Barra, Pinheiros, São Mateus e depois retornando para Pedro Canário”, destaca.

Espaços Culturais

Entretanto não é somente por meio de editais que existe o estímulo ao movimento Hip Hop. Os espaços culturais da Secult,também realizam diversos eventos e parcerias com o objetivo de divulgar a criação artística de jovens no segmento. A Biblioteca Pública Estadual (Bpes), por exemplo, já promoveu o Slam ES, campeonato Interescolar de poesia falada, com participação de estudantes de todo o Estado. O Slam é uma prática que defende o direito as rimas por meio de batalhas poéticas e microfonadas.

Outro evento importante realizado na Bpes foi o lançamento do livro “Rap: A Força da Fala”, coletânea que reúne letras e rimas de artista do gênero produzidas entre 1987 e 2010, e que foi organizada pelo artista Fredone Fone com colaboração de L.Brau. A programação trouxe para dentro da biblioteca, um sarau aberto, projeções mapeadas do coletivo Pixxfluxx e batalha de MC’s do Projeto Boca a Boca.

Contemplado no Edital nº 003/2018, o Projeto Boca a Boca realiza encontros pela Grande Vitória incluindo em sua programação, batalha de MCS, Freestyle, poesia e apresentação de dança. De acordo com um dos seus coordenadores, Marcéu Rosário Nogueira, é preciso que os projetos tenham mais visibilidade por meio da mídia para que os jovens artistas possam divulgar a arte da cultura urbana de uma maneira mais abrangente.

“Se a poesia e o graffiti fossem mais divulgados pela mídia as coisas seriam diferentes ao invés de apenas mostrar a violência e o lado ruim das periferias. É necessário que os bons projetos sociais possuam visibilidade e isso é um fator relevante para demonstrar o jovem como protagonista de sua história”, enfatiza Nogueira.

A Gestora do Edital da Cultura Hip Hop, Rita de Cássia Feitosa Rodrigues, destaca como o movimento hip hop no ES, nos últimos 10 anos, cresceu notoriamente com influência das batalhas de Mc’s, tornando os jovens negros e de periferias como o centro da cena cultural e gerando oportunidade para que esses se tornem protagonistas de sua própria linguagem.

“O Hip Hop se torna integrante de lugares onde a classe média ocupava e passa por um momento de processo importante no cenário capixaba. Algumas figuras importantes da velha guarda como Sagaz, Pandora, Fredone, Jack da rua, etc, tiveram e continuam tendo, um papel importante de referência para esses jovens. Sem contar os festivais de referência no país como o Origraffes (Original Graffiti Espírito Santo) idealizado por Starley Graffiti. O hip-hop toma para si o que sempre foi dele. Ruas, muros, fachadas de loja, outdoor. O lugar do hip-hop no Espírito Santo é onde ele quiser”, destaca Rita.

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