Sobrevivente do genocídio em Ruanda reconta sua história 25 anos depois

11:01 h

“Milagrosamente não tenho marcas de machete”, disse uma sobrevivente do genocídio contra os tutsis em Ruanda, 25 anos depois do sistemático massacre de mais de 1 milhão de pessoas em cerca de três meses. Em evento solene nesta sexta-feira (12) em Nova Iorque, no salão da Assembleia Geral das Nações Unidas, Esther Mujawayo-Keiner disse que “a maior parte dos sobreviventes que temos hoje foi quebrada em seus corpos ou em suas almas”.

O genocídio começou em 7 de abril de 1994 e terminou em julho do mesmo ano. Em média, 8 mil pessoas morreram por dia.

Ela relembrou como o genocídio matou quase toda sua família direta, incluindo seus pais, a maioria de seus irmãos e seu marido. Ela pensou que poderia ser a última mulher viva, “porque era quase impossível sobreviver”.

Mas, aos poucos, descobriu que havia outras viúvas – um novo tipo de família – que a ajudaram e fizeram com que não estivesse mais “morta por dentro”. Juntas, as viúvas e outras sobreviventes mulheres fundaram a associação AVEGA.

Cuidado com “tendências perigosas”

O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, se referiu ao genocídio como “um dos capítulos mais sombrios da história humana recente”, que mirou em grande parte a etnia tutsi, mas também hutus moderados e outros grupos que se opuseram.

“Hoje nos solidarizamos com o povo de Ruanda”, disse Guterres aos presentes no encontro, pedindo para todos reconhecerem as “perigosas tendências de crescente xenofobia, racismo e intolerância”.

Chamando a atual proliferação de discursos de ódio e incitações à violência de “uma afronta aos nossos valores” e de ameaça “aos direitos humanos, à estabilidade social e à paz”, Guterres disse que estas são “as tendências perigosas” que estavam “claramente presentes em Ruanda imediatamente antes do genocídio”.

“O evento de hoje nos dá uma oportunidade de mais uma vez levantarmos nossas vozes contra o racismo, a xenofobia e as intolerâncias relacionadas, incluindo discriminação social e étnica, ódio contra muçulmanos e antissemitismo”, afirmou o chefe da ONU.

“Quando ocorrerem, estes males devem ser identificados, confrontados e cessados para impedir que levem, como fizeram no passado, a crimes de ódio e genocídio”.

Reconstrução

O presidente de Ruanda, Paul Kagame, atestou em discurso o espírito de luta de seu país, de como saiu da escuridão para a esperança, e afirmou que honra e prevenção são atos de memória.

“Nós honramos as vítimas. Nós honramos a coragem dos sobreviventes e nós honramos a maneira como ruandeses se juntaram para reconstruir nossa nação”, disse.

Citando “negação e banalização” como a base do genocídio, Kagame afirmou que “conter a negação é essencial para quebrar o ciclo e prevenir qualquer recorrência”.

Ele destacou que Ruanda está entre os cinco maiores contribuintes às missões de paz da ONU, explicando que sua nação contribui com soldados e policiais por “valores instilados por nossa trágica história”.

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